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Dunas de Cidreira mostram-se uma maravilha a ser conservada (21/05/2018)

No mês de abril o Instituto Curicaca realizou uma expedição de estudo às dunas de Cidreira, cuja imensidão, beleza cênica e riqueza biológica tornam um lugar único no Rio Grande do Sul. Os estudos acontecem pelo Projeto de Conservação das Últimas Dunas do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, apoiado pela Fundação O Boticário, e os resultados técnicos já estão sendo usados para criar uma Unidade de Conservação na região. A demanda é antiga, reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente nas áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade, e finalmente vai sair do papel. Isso também porque a ONG conseguiu impedir o licenciamento de um Parque Eólico bem em cima das dunas.

A atividade de campo objetivou avaliar a ocorrência de três espécies ameaçadas que dependem diretamente do ambiente litorâneo o butiá-da-praia, o tuco-tuco e a lagartixa-das-dunas — e os impactos que a ação humana tem sobre elas. Para isso foram distribuídos aleatoriamente 30 pontos a serem analisados na área por oito técnicos do Curicaca: Alexandre Krob, Bruna Arbo, Caroline Zank, Dener Heiermann, Isabel Salgueiro, Ismael Brack, Lais Gliesch e Rodrigo Becker.

A equipe trabalhou em duplas, cada uma percorrendo 10 quilômetros, subindo e descendo dunas, costeando lagoas, passando por áreas úmidas. Desbravar a área de cerca de 3.000 hectares é desafiador, e requer grande esforço, mas compensa por sua beleza estrondosa. Sobre a experiência, Alexandre Krob, afirma: “Apesar de difícil de fazer, trouxe muita gratificação, porque é uma área belíssima, são dunas grandes, tu te coloca como pessoa dentro daquela imensidão”. O local é um dos últimos do Rio Grande do Sul onde ainda existe toda a sequência de formação dos ambientes costeiros — praia, dunas frontais, grandes dunas, banhados e lagoas — além de possuir grande diversidade de fauna e flora. Apesar de tamanha importância, a região sofre constante ameaça, por conta da expansão urbana no Litoral Norte e instalação de empreendimentos de energia eólica. Em diversos pontos foram observadas trilhas de carros, jipes e motos, pegadas de cachorro e cavalo, lixo e espécies de árvores invasoras, dentre outros sinais de degradação ambiental, segundo a técnica Lais Gliesch.


Todos esses fatores levaram a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) a estudar a possibilidade da criação de uma Unidade de Conservação (UC) na região. A partir do suporte técnico fornecido pelo Instituto Curicaca e por outras instituições, foi possível a proposição efetiva da instauração de uma UC pela Sema. O aprofundamento desses subsídios técnicos foi justamente um dos motivos pelos quais realizamos a expedição. Se a proposta for levada adiante, o Rio Grande do Sul passará a ter uma UC atrativa e grandiosa, com potencial turístico e com possibilidade de imersão nas dunas, com trilhas, observação de fauna e forte vivência na natureza.

O coordenador técnico do Curicaca, Alexandre Krob, explica: “A gente está muito contente de contribuir neste projeto para a possibilidade efetiva de criação de uma UC em uma área que, há quase dez anos, conseguimos segurar o licenciamento de um parque eólico”. Krob se refere à uma proposta feita por um empreendedor de energia eólica em 2009 de construção de um parque eólico na região de Cidreira analisada durante a nossa expedição. Na época, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) emitiu a licença ambiental para a construção do parque, por considerar que ele não produziria impactos significativos na área. Então nos mobilizamos junto do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de outros parceiros e ajuizamos uma ação contra o órgão licenciador e o empreendedor. Em função das provas apresentadas a juíza de que a construção do parque seria bastante prejudicial ao ambiente arenoso, foi possível uma liminar impedindo o licenciamento.


A expedição de abril auxiliou, também, a reforçar que realmente era necessário revogar a licença e que não é verdade que a instalação de parques eólicos em dunas não causa problemas, como afirmava a Fepam . A comprovação disso se deu porque alguns dos pontos amostrais das pesquisas de campo caíram aleatoriamente dentro do parque eólico de Tramandaí. O resultado mostrou que as dunas dessa área e suas dinâmicas ecológicas estão completamente alteradas, em parte por conta dos acessos do parque para cada uma das torres geradoras, que movimentou uma enorme quantidade de areia, estabeleceu barreiras, alterou a dinâmica hídrica e todo o ambiente. Praticamente não se encontram mais dunas significativas dentro do local. Para piorar, as pás dos aerogeradores atingem muitas aves migratórias, morcegos e aves de rapina, as bases de concreto deles alteram o lençol freático e o ruído e vibração das turbinas causa perturbação à fauna (estudos para herpetofauna estão sendo feitos por parceiros da UFRGS).


Mais sobre o projeto

O projeto de Conservação das últimas dunas costeiras do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, apoiado pela Fundação O Boticário, concluiu a primeira avaliação do estado de conservação deste ambiente dentro do Parque Estadual de Itapeva em dezembro de 2016. Outras expedições ocorreram no Parque Natural Municipal Tupancy e na Área de Proteção Ambiental Municipal da Lagoa de Itapeva. O levantamento de campo feito em Cidreira foi o primeiro do local, mas a 14ª avaliação em todo o projeto.

Além de dar subsídios para a criação da UC em Cidreira, os resultados preliminares detalharam o mapeamento das dunas do Litoral Norte, ofereceram uma hierarquização para priorizar a sua conservação, apresentaram sugestões de melhoria na gestão do ambiente dentro de algumas UC e ajudaram a compreender como as espécies indicadoras estão ocupando o território. Mais resultados virão por aí.



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